Ser Franco

a mulher luta
cai
se ergue
continua a lutar
a mulher é negra
a luta é dura
a vida é mais dura
o inimigo continental
que faz a mulher
mais forte
grande
ela cresce
ilumina
aparece
ganha o título
surpreende
mas a mulher é negra
é pobre
é gay
é mãe
nada importa
o sistema a repele
a retira da vida
da luta
nem o título oficial foi capaz de dar-lhe afago
o consciente se reduz
chora
protesta
a repetição da história
tiros na noite
cegaram o Brasil
caolho
uma heroína se deita
uma mulher comum assassinada
uma mãe parte
é triste saber que Marielle terminou
em vida a batalha
e que perpétua por um tempo será a morte
sem a volta dos vencedores

Por André Nishihara

Viajando pela Europa

Amanheci na América

Preparei o café

Tomei um gole

No pousar a chícara

Já estava na Alemanha

Vi o lobo mostrar os dentes

E quando o dia ia rompendo

Eu o vi sumir na estepe

O sol bradou cores alaranjadas

E o horizonte se coloriu em pêssego

Tomei o trêm

Desci em Londres

Já eram nove da manhã

Na estação vi um menino

Maltrapilho, sujo e sem medo

Catava coisas do lixo

E me olhou com palidez

Segui adiante e fiquei com a lembrança

Já badalava o sino das doze

Quando a estrela do norte

Vésper maravilhosa

Me saldou crescente

No céu de Bucareste

Vi a sua beleza nas ruas

E nas casas alinhadas

Com telhados pendidos

Feitos por filhos dos filhos

Avôs e pais do passado

Atravessei a rua e desaguei em Lisboa

Velha terra de Pessoa

E acestrais do meu Brasil

Caminhei pelas ruas

Loucas ruas e claras

Apressavam no tempo

Onde a morte certa

Esperava o poeta da pedra

Nessas ruas ouvi os gritos

De mulher desesperada

Quase morta a viuvar-se

Loucura,

Isso é loucura

Disse e repeti

Loucura,

Morre o dia

Sento-me no sofá

De volta a América

E ao lado da levada Tatá

Escrevo sobre a viagem

Que fiz sem levar meu corpo

Pensando no tempo que ainda tenho

Voltei a Portugal

E li Florbela

E tão bela

Foi a noite

De lua

Nua

À capela

Por André Nishihara

O invisível em teimosia

no canto escuro
o meu sapato
esperando pés
me olha soturno
aberto ao tempo
amarrotado por dedos
em cadarços arrebentados
me ilustra um verso raso
rabisco um traço
um verso versa
o poema abre
mas a minha coleira aperta
e volto ao computador
o dia começa escorrido pela noite
mal dormida
mal cumprida
caminhos cintilam na tela
do sapato espelham
pés invisíveis que apoiaram corpos
corpos em pés invisíveis
que em mim
nunca passaram
e de mim
nunca sairam
o corpo se ereta
me ajeito na cadeira
desperto pelo súbito calar
represado desespero
de passos que nem nasceram
mas que teimam em deixar um rastro
nas remelas dos meus olhos

Por André Nishihara

Brasilidade

O grito que te libertas ó mãe gentil

Em teus pastos e cerrados vastos

Alcança o dia e cala-se na noite

Aves de rapina sobre o céu do centro

Formigas pastoras da relva

É tudo faca enterrada na sua carne terra

Que te sangra como água

Pelas estradas invisíveis das esmeraldas

 

Fulguras ó pátria amada

Pelos vales dos seus rios secos

Esse nordeste que desce a vazante

Em caçambas apinhadas de esperança

O príncipe que agora rei fora grande

Sobre o cavalo ficou pequeno

Diante do ribeirão das margens plácidas

Bradou com braço forte a própria morte

 

Essa brisa de Mata Atlântica

Que fortalece e refresca os olhos

Por um instante único de liberdade

Saltou pela janela como ouro

E a Amazônica rainha verde da américa

Árida de mãe e violada como goma

É mancha fóssica do satélite

Aos olhos do mundo retumbante

 

Mas a imagem do cruzeiro resplandece

Diante da janela suja do apartamento

E em formoso céu se planta almas

De crianças adultas como rabiscos do dia

Ó pátria amada

Salve-se. Salve-se.

Idolatra a educação eunuca

Parida sobre a terra dourada

 

Dos filhos destes solo

És mãe infértil

Terrível dia mais garrido

Quando nossos bosques tem mais flores

É do bosque a terra sepulcra remexida

De tantos corpos espalhados

De tantas vidas desperdiçadas

Ó pátria amada

 

Brasil de amor eterno

Diga ao verde ouro reluzente

Que não podeis levar os nossos filhos

A essa clava rugente de sangue

Mãe das águas do norte

E dos séculos agrestes

Marcados nesse solo anil

Desse chão que chamamos Brasil

 

Por André Nishihara

Festa

a vida é como uma festa
você chega e não conhece ninguém
depois de um tempo
todos vão parecendo conhecidos
troca a música
a luz pisca
risadas
muita dança
a festa cresce
chega no auge
e esquece-se do tempo
na felicidade o relógio é mudo
daí pra frente o corpo já começa pesar
fica cansado
pede banco
cadeira
algum apoio
as pessoas começam a deixar a festa
é quando você percebe
que a festa está chegando ao fim
poucas pessoas no salão
a música é velha
lenta
as luzes acendem
chegou a hora de ir embora
a festa acabou

Por André Nishihara