Quatro tias

hoje o dia nasceu triste
o horizonte derreteu meus olhos
hoje a quarta irmã subiu ao céu
junto com todos os sorrisos
palavras e abraços
há de haver hoje menos na terra do que no céu
há de restar lágrimas onde pisaste
mas não sejas nelas as melhores lembranças
pois recordar é manter-se vivo
se puderes recordar das alegrias
das festas de fim de ano
do bom pricípio de ano novo
dos presentes trocados no amigo secreto
dos almoços e jantares
das conversas confusas entrelaçadas em cada cômodo da casa
das sacolas de feira cheias de verdura
da porta de vidro mostrando a rua
das canecas de alumínio esperando na pia a sede
da televisão acesa nos olhos do menino
dos peixinhos se reproduzindo no aquário
do arroz branco no liguimexe moldado a mão
do peixe frito trazido da pescaria
das crianças brincando no quintal
das irmãs conversando no sofá
das gargalhadas de Teresa
da batalha de Noêmia
dos sorrisos de Elsa
das visitas de Virgínia
da casa da Batian
do coração da família
lembrem das coisas boas
pois coisas boas serão eternas
se nelas plantarmos os sorrisos daqueles que partiram
partir é repartir o tempo
é entrar onde o tempo não importa mais
onde o espaço não prende e não limita
é onde começa a eterna vida das lembranças
e nela sempre se viverá sem nunca ter morrido
pois só morre quem não é lembrado
e para nossa querida e amada tia, irmã, mãe, avó, cunhada, esposa e amiga
sempre haverá corações acesos
a propagarem na luz
a sua existência
Adeus tia
Nos vemos nas recordações
Por André Nishihara
Em memória de Virgínia Nishihara

Desviver

quando me acomodarem no silêncio do chão

não chores pela minha carne

que não era minha

quando turvarem olhos a minha volta

fite a comprida linha do horizonte

pois nela estará escrito o meu último verso

não sinta saudade do que já era fim

saudade é um querer continuar

descontinuado

mergulhe na lagoa infinita da desimportância

pois este é o destino de todos

que caminham

não espere pela mão da melancolia

para que te avise da vida

movidiça e fulgás

enquanto o meu corpo padece

não o olhe não estarei ali

ao invés disso

sorria para o sol

olhe pedras

chute-as

contemple mares

brinque de esquecer

e entenda as perguntas

que não necessitam respostas

pois nelas se escondem as verdades da vida

a morte nos transborda para o mundo das memórias

e que para morrer no mundo fictício real

não necessita estar vivo

não viver já basta

não espere a desvida para entender que a vida eterna

é uma ilusão que tentamos pegar pelo rabo

Por André Nishihara

Ipê Amazônico

dentro da floresta o Ipê dorme

sobre as folhas que foram o seu chão

de dentro da floresta o gigante amazônico é arrastado

deixando no chão da floresta a sua última marca

da centenária existência

a serra gananciosa o fatia

e pequenas tábuas são empilhadas

pilhas e mais pilhas são alinhadas

o caminhão parte de um mundo vivo para o admirável mundo flácito

cada lote é etiquetado com o selo do bem

o palete segue de navio até o destino financeiro do mundo

ali naquele corredor cada lote é posto a venda e vendido

e se transforma no piso do deck da Smart Home

onde humanos felizes criam seus

felizes filhotes

ali em forma racionalizada o belo é posicionado como acabamento

com muito capricho, suntuoso e limpo

ambientalmente green

do velho Ipê só a razão de sua dureza importa

da sua leve beleza de copa amarelando o verde fundo

nada se fala e muito se ignora

o importante desimporta

por não alimentar as caixas registradoras do sistema

o imponente Ipê agora pequeno

reduzido a superfície de um piso qualquer

de uma casa qualquer

ainda sustenta com a mesma força

que sustentou as suas delicadas flores

os pés daqueles que nem sabem que um dia tiveram pés

e que hoje pisam onde nunca pisarão novamente

por André Nishihara

No Mínimo 80

oitenta vezes foram o quase número de balas disparadas contra o carro
oitenta projéteis disparados para proteger matando
oitenta gritos de terror saem pela garganta do fuzil
oitenta vozes bradaram no dia o ato banal do “mais um”
oitenta brasileiros mortos dentro de um mesmo corpo brasileiro
oitenta olhares parados diante do video no youtube
oitenta versões da mesma versão
oitenta orações feitas para a viúva
oitenta votos selecionados pela dissolução
oitenta carros metralhados por oitenta soluções de pacificação
oitenta armas na mão
oitenta balas no corpo
oitenta perguntas do porque das oitenta balas
oitenta lamentos pelo morto
oitenta armas carregadas
oitenta armas engatilhadas
oitenta vezes disparadas
armas apontadas na direção do cidadão
armas para proteger a violência da própria violência
armas para resolver o que não se quer resolver
o preço do desejo foi alto demais
oitenta tiros é um preço alto a se pagar
o imposto é alto demais
o céu é alto demais
a diferença social é alta demais
oitenta tiros fizeram oitenta furos
no orgulho brasileiro
uma nação inteira olhando dentro e fora
e através dos oitenta furos
Brasil uma nação com alma
dela se faz a ferramenta
armas nas mãos
balas no corpo
o corpo não diz nada depois de calado
o corpo não deseja nada depois de frio
o corpo não vale mais nada depois de tomar oitenta tiros
Por André Nishihara

Arcanjo

adeus Zé

fica a saudade
sobre as suas pegadas
o homem
não caminhará mais
pois se deitou no eterno
adeus Zé
que a sua jornada
permaneça viva dentro daqueles
que deixaste triste
muitos anos passarão
e sobre a sua sombra
se deitará lembranças
do amor que plantaste
a dor será a falta
do pai
do amigo
do avô
do marido
do arcanjo
dessa dor que somente aqueles
que amaram
deixam
adeus Zé

Por André Nishihara

Em memória do amigo Zé Arcanjo