Arcanjo

adeus Zé

fica a saudade
sobre as suas pegadas
o homem
não caminhará mais
pois se deitou no eterno
adeus Zé
que a sua jornada
permaneça viva dentro daqueles
que deixaste triste
muitos anos passarão
e sobre a sua sombra
se deitará lembranças
do amor que plantaste
a dor será a falta
do pai
do amigo
do avô
do marido
do arcanjo
dessa dor que somente aqueles
que amaram
deixam
adeus Zé

Por André Nishihara

Em memória do amigo Zé Arcanjo

os meus passos

os meus passos

passearam por não caminhos

e deles restaram os sapatos gastos

os meus passos

passaram por sobre ontens

que existiram e resistiram ao passado

os meus passos

trouxeram para mim lonjuras

onde estiveram outros eus revisitados

os meus passos

sobreviverão depois que as pernas

cairem no tempo e depois da poesia acabar

Por André Nishihara

repetição

porrada porrada porrada
tiro bala arma porrada
porrada
porrada
porrada
muda a tela
mesma página
porrada porrada porrada
cada soco um ponta-pé
cada grito uma troca de cena
rápida
dinâmica
sem raciocínio
pânico pânico porrada porrada
grito grito soco ponta-pé
recomeça a mesma cena
em outra
crianças que voam matam crianças
que não voam
adultos fantasiados atacam
deuses
monstros
dinossauros
adultos fantasiados
mata mata mata
morre morre morre
degola degola degola
esmaga esmaga esmaga
atira atira atira
quebra quebra quebra
termina a última cena
nos créditos se constata
o previsível
depois de tudo socado quebrado moído esmagado morrido matado cansado
há sede para mais
porrada porrada porrada
DOIS
Por André Nishihara

dois homens

deus segurando duas pedras
uma em cada mão
disse
 –
existem nessas pedras tesouros escondidos
tesouros antigos do tempo de quando formei o universo
 –
deus deu uma pedra para cada homem
 –
o primeiro homem pegou a pedra e começou a abri-la, para isso usou:
pedras
martelos
marretas
barras de ferro
fuzis
notas de dólar
iphone
bundas
castiçais
livros
tronos
troféus
torres
castelos
pregos
 –
ao abri-la encontrou apenas pedra
esfarelada
quebradiça
moída
 –
o segundo homem pegou a sua pedra e se colocou a olhá-la com espanto
a olhou de um lado
de outro
de dentro
de fora
de mais dentro
de longe
na casca
na dureza
na rugosidade
na cor
no peso
na forma
no material
no atemporal
no invisível
do invisível
do intocável
de deus
 –
continuou a olhar espantado para o objeto como se ele fosse um artefato
ficou ali parado
homem e pedra
por um longo tempo
então
a olhou pela última vez e a devolveu a deus, e disse
obrigado por compartilhar comigo
o teu tesouro
Por André Nishihara

O menino que comia bolinhos

O cheiro de fritura cheira longe

Fritura quente empreguina na gente

O ar entra escorregadio nos pulmões

E o estômago tenta morder os botões

Avisa o cérebro que tem bolinho

Os dentes afogam-se na saliva

E a boca mexe como mexerica no galho da mexeriqueira

É bolinho de nirá

Corre menino chama a cambada

Que tá na mesa

É hora de jantá

Tem bolinho de nirá

Tem quiabo sem babá

Tem arroz quentinho na panela

E feijão batidinho com estrela de ferro

Tem angu

Bife acebolado

Tudo feito hoje

Trabalho danado

Corre menino que a mesa está posta

Molha o bolinho no molho de soja

Come a vontade

Come a saudade

Por André Nishihara